O enquadro da masculinidade frágil no Hip-Hop
Texto: Richard Elói

A Cara do Enquadro é o mais recente álbum de Kayblack, lançado no dia 31 de outubro. Sua capa é alvo de piadas de cunho homofóbico desde a divulgação no dia anterior ao lançamento e, após uma semana com todas as faixas no ar, o artista divulgou a nova capa do projeto, gerando diversos tipos de comentários principalmente daqueles que dizem que ele não sustentou a própria arte.

Colaborações e Nova Era de Kayblack

Com participações pesadas de KL Jay, MC Hariel, Kyan e outros, o rapper se move para fora dos tons românticos pelos quais era conhecido e entra em uma nova era mais visceral e real dele. Porém, antes mesmo de se poder ouvir qualquer música dessa nova fase, sua principal arte já havia se tornado assunto controverso em tom de piada.

A Polêmica da Primeira Capa

Capa descartada de “A Cara do Enquadro”

Com o rosto de Kayblack sendo prensado contra a parede, a capa do álbum era uma clara alusão ao título A Cara do Enquadro, mas foi recebida com comentários homofóbicos em posts de divulgação, insinuando algum ato sexual na imagem.

O álbum toca em assuntos como fé, violência policial e racismo, mas acabou servindo também como uma demonstração da frágil performance de masculinidade mantida sob pressão — principalmente quando direcionada a homens negros.

A Segunda Capa e a Mudança de Discurso

Capa oficial de “A Cara do Enquadro”

Dias depois de ter seu álbum lançado, Kayblack anuncia a nova capa, onde desta vez apresenta uma criança encarando um policial. A discussão tomou novos rumos quando internautas interpretaram que ele não aguentou as críticas e as piadas, cedendo à pressão e esquecendo o real significado da peça original.

Após reclamar de “hate desnecessário” em seu Twitter, o artista finalmente veio a público afirmar que esse era o plano desde o início:

“A gente já tinha o planejamento de ser mais de uma capa pra esse álbum”
👉 Fonte: Instagram de Kayblack

Masculinidade Frágil e Pressões Sociais

Em uma sociedade onde qualquer expressão que foge do rígido modelo de como homens devem se portar é recebida com um “lá ele” — termo usado contra qualquer ação ou comentário que possa ter duplo sentido homoafetivo —, o conceito e comprometimento artístico se encontram subjugados pelo medo de que, ao realizá-los, o artista pareça “menos homem”.

A manutenção dessa masculinidade frágil vem dos próprios homens, quando regulam a si mesmos e aos outros, evitando qualquer distanciamento do ideal viril levantado décadas atrás. Não à toa, a maioria dos comentários ironizando a imagem veio de perfis masculinos.

O Peso Redobrado para Homens Negros

Deve-se também salientar que a margem de atuação para homens negros é bem menor, já que o estereótipo sobre esse corpo é de extrema rigidez. A imagem do “negão marrento” nunca saiu do imaginário popular, e quem ousa agir diferente dela é visto como alguém que trai sua raça e gênero.

Conclusão: O Papel da Arte de Kayblack

Independente da intenção ou não, a arte cumpriu o seu papel de incomodar e gerar discussões — neste caso, sobre homofobia e a constante necessidade de reafirmação masculina, sobretudo no hip-hop.

Agora, resta esperar que essas discussões se convertam em reflexões e, quem sabe, mudanças de visão.

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