Arlindo Cruz, gênio da música negra brasileira, morre no Rio
Por João Victor Pessanha

Morreu hoje, sexta-feira, 8 de agosto de 2025, o sambista, compositor e multi-instrumentista Arlindo Domingos da Cruz Filho, mais conhecido como Arlindo Cruz, aos 66 anos, no Hospital Barra D’Or, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela esposa do artista, Babi Cruz.

Saúde e legado

Desde março de 2017, após sofrer um AVC hemorrágico durante o banho, Arlindo Cruz convivia com graves sequelas — paralisia parcial, dificuldades para falar, reinternações frequentes e alimentação por sonda. Em maio de 2025, foi internado novamente devido a uma pneumonia causada por bactéria resistente, da qual não se recuperou.

Carreira e contribuições

Arlindo Cruz nasceu em 14 de setembro de 1958, no Rio de Janeiro, e iniciou cedo sua trajetória musical ao ganhar seu primeiro cavaquinho aos sete anos. Foi integrante do inovador Grupo Fundo de Quintal, contribuindo decisivamente para o surgimento do pagode como movimento musical, ao lado de nomes como Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Beth Carvalho.

Composições

Entre suas criações mais conhecidas está “O Show Tem Que Continuar”, parceria com Sombrinha e Luiz Carlos da Vila, gravada originalmente no Fundo de Quintal e regravada por inúmeros artistas. Com uma mensagem de resistência e esperança, a canção se tornou um hino do samba e figura entre as mais executadas da música brasileira.

Outra obra-prima é “Meu Lugar”, composta ao lado de Mauro Diniz e lançada no álbum Sambista Perfeito (2007). Um verdadeiro retrato afetivo do Rio de Janeiro, a música foi interpretada por Arlindo com emoção singular e também ganhou uma leitura marcante na voz de Beth Carvalho, madrinha de inúmeros sambistas.

Arlindo também deixou sua marca no repertório de Zeca Pagodinho, para quem compôs sucessos como “Bagaço de Laranja”, “Casal Sem Vergonha”, “Dor de Amor” e “Quando Eu Te Vi Chorando”. Essas canções ajudaram a consolidar o estilo irreverente e ao mesmo tempo emotivo de Zeca, reforçando a parceria artística entre os dois.

Na voz de Beth Carvalho, outras composições de Arlindo se destacaram, como “Jiló com Pimenta”, “Partido Alto Mora no Meu Coração” e “A Sete Chaves”. Com sua interpretação potente e afetuosa, Beth ajudou a imortalizar esses sambas no imaginário popular.

O trabalho de Arlindo também dialogou com uma nova geração de intérpretes. Em Samba Meu (2007), Maria Rita deu vida a faixas como “Num Corpo Só”, “Tá Perdoado” e “O Que É o Amor”, reafirmando a versatilidade e atualidade das composições do artista.

Outros clássicos como “Saudade Louca”, “Samba de Arerê” e “Ainda É Tempo Pra Ser Feliz” aparecem frequentemente nas listas de músicas mais tocadas e regravadas do samba. Essas obras, cantadas por diferentes intérpretes, mantêm viva a poesia, a cadência e a inventividade que caracterizam a obra de Arlindo Cruz.

Com melodias marcantes e letras que vão da celebração à reflexão, Arlindo construiu uma obra atemporal, capaz de emocionar e inspirar, reforçando seu papel como um dos maiores poetas do samba brasileiro.

Homenagens

Em nota nas redes sociais, familiares destacaram:

“Mais do que um artista, Arlindo foi um poeta do samba, um homem de fé, generosidade e alegria, que dedicou sua vida a levar música e amor a todos que cruzaram seu caminho. Sua voz, suas composições e seu sorriso permanecerão vivos na memória e no coração de milhões de admiradores. Agradecemos profundamente todas as mensagens de carinho, orações e gestos de apoio recebidos ao longo de sua trajetória e, especialmente, neste momento de despedida”, diz o texto.

“Arlindo parte deixando um legado imenso para a cultura brasileira e um exemplo de força, humildade e paixão pela arte. Que sua música continue ecoando e inspirando as próximas gerações, como sempre foi seu desejo”, completa a mensagem replicada pela conta oficial do artista, assim como a do filho, Arlindinho, e da filha, Flora Cruz.

A escola de samba Império Serrano, para a qual ele compôs diversos sambas-enredo, também lamentou a morte do artista, ressaltando seu “grande legado”.

Até o momento da publicação desta matéria não haviam informações sobre o sepultamento do artista.

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