João Loroza: a esperança mainstream do R&B brasileiro
Capa: Jeff Balbino (@balbino.x)

Por João Victor Pessanha e Richard Eloi

Com o ligeiro declínio do Trap e das demandas coreográficas comerciais geradas pelo fenômeno pandêmico do TikTok, o R&B e a música romântica orgânica têm encontrado um novo terreno fértil para florescer, em 2025.

Quem está atento a este cenário é o cantor e compositor carioca João Loroza (@joaolorozaoficial). O seu mais recente lançamento – o EP SOUL EU – é uma ode à sonoridade do Charme, uma unanimidade no consumo popular das vertentes mais dançantes do Rhythm and Blues no Brasil, desde os anos 80.

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Capa do EP SOUL EU

O lançamento mais recente – e que também encerra a era SOUL EU – é a parceria com a cantora JUCY (@jucymermo). A faixa é um R&B romântico com ares de anos 2000, que remete à icônica Dilemma de Kelly Rowland e Nelly e aos feats históricos entre o rapper Ja Rule e a cantora Ashanti.

Breve história do R&B no Brasil

Embora muito popular entre os amantes de música urbana no Brasil, geralmente, o R&B só ganha as pistas quando cantado em inglês. Desde que o ritmo se estabeleceu como pilar da música afrorromântica nas Américas, ainda nos anos 80, poucos nomes do Rhythm and Blues brazuca conseguiram furar a bolha dos bailes blacks, chegando às rádios e TVs no Brasil:

  • Tim Maia e Cassiano, nos anos 80
  • Sampa Crew, Mc Marcinho e Claudinho & Buchecha, nos 90
  • Fat Family, D’Black e Negra Li, nos anos 2000
  • Ludmilla, Iza, Delacruz, Yoùn e Os Garotin, nos últimos anos

Se considerarmos as confluências entre R&B e Pagode, esse elenco ganha mais atores, como Os Travessos, Alexandre Pires, Belo e a própria Ludmilla, que têm incorporado cada vez mais elementos do gênero romântico em seus lançamentos, sob o rótulo Numanice.

Outro marco importante, e que vai aparecer muito aqui no Lado Escuro, é o Hip-Hop Vídeo Traxx. Essa coletânea de DVDs de videoclipes da música urbana afro-estadunidense, vendida na primeira década dos anos 2000, foi decisiva para uma coesão estética e sonora entre os artistas negros brasileiros, sobretudo pertencentes ao universo do Hip-Hop, no qual o R&B está inserido.

Outra vertente na qual o R&B encontrou eco nos últimos anosfoi no Rap Acústico. Leia uma matéria completa sobre o gênero clicando aqui.

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Ludmilla e Iza por Steff Lima / Divulgação

O trabalho de campo de João Loroza

A falta de comunicação entre os artistas do gênero também incomodava João. Por isso, há três anos, ele colaborou com a criação do Sarau do Azevedo, idealizado por Marcus Azevedo, coreógrafo de Dança Charme e especialista do gênero R&B no Rio de Janeiro.

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Marcus Azevedo e João Loroza – Reprodução / Instagram

Com o aumento da frequência das edições do Sarau do Azevedo — que acontece às segundas-feiras, sem local fixo — criou-se um espaço cada vez mais sólido de trocas, discussões sobre os rumos do gênero e pesquisas estéticas e de sonoridades possíveis, com cantores, compositores, musicistas, estilistas e empresários do ramo.

Segundo João, o mercado só vai entender a cena quando os próprios artistas entenderem suas identidades, buscando na ancestralidade musical os caminhos para onde o estilo deve prosseguir. Para ele, este é um processo de longo prazo e que costuma ser conturbado pela perseguição ao hype e ao crescimento financeiro instantâneo. João nos lembra que embora o mainstream traga possibilidades e estrutura, a cena underground é quem alimenta criativamente o mercado.

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Cantor Vinicius D’Black no Sarau do Azevedo – Reprodução / Instagram

Identidade visual e artística

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João Loroza. Foto: Jeff Balbino/Divulgação

Apesar de ser fortemente influenciado pelos videoclipes do Hip-Hop Video Traxx, João Loroza demorou a definir sua identidade visual. O artista pondera que a gordofobia da moda impactava diretamente nas suas escolhas, evitando cores e estampas, por exemplo — fato que só mudou com a chegada da stylist Marah Silva (@marahsilva22) em sua equipe de colaboradores.

A partir daí, João passou a explorar novas cores, texturas — inclusive as de estética africana — personalizando suas próprias peças. Sobre estética, ele conclui que nunca alisou o cabelo, graças a referências como Jackson’s Five e Questlove, baterista do grupo de Hip-Hop The Roots.

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Dona Nyna e João Loroza no videoclipe de Proposta – Dir. Felipe Argôlo

Seria o Viaduto de Madureira o território que vai tornar o R&B mainstream?

Apesar de ser cria de Madureira, faz apenas 5 anos que João Loroza passou a frequentar o famoso Baile Charme do Viaduto. Entretanto, música sempre pôde ser ouvida da sua casa, bem como pôde acompanhar a evolução estética ao longo dos anos, uma vez que mora a poucos metros do local do baile.

Ao pensar a concepção do seu mais recente EP, o SOUL EU, João entendeu a necessidade de o single principal ter uma sonoridade que homenageasse este território e pusesse a galera para dançar um som que soasse familiar e orgânico para este público. A faixa “Sem Nada” (feat. Tabatha Aquino) não só foi lançada em um dos bailes, como segue tocando aos sábados, com direito a passinho exclusivo performado pelos frequentadores, com a assinatura do veterano Marcus Azevedo (@azevedocharme), que também responde pela direção artística do projeto.

O EP conta com a produção do gigante Gus$t, com parcerias femininas potentes e diversas sonoridades do R&B contemporâneo. As faixas Encanto, Em Casa, Proposta e Sem Nada têm videoclipes com direção de Felipe Argolo (@argolo_), já a faixa Na Brisa conta com clipe dirigido por João Victor Pessanha (@pessanhajv_), diretor criativo do portal Lado Escuro.

Essa territorialização musical executada por João Loroza dá indícios de uma possibilidade real e atual para os artistas de R&B finalmente experimentarem os holofotes do mercado fonográfico nacional: a música associada a um movimento estético e um território sónico-musical (Herschmann; Fernandes, 2014) é uma receita certeira que sempre funcionou ao longo da história da música urbana — assim foi com o Samba, o Pagode, o Rap e, até mesmo, o Rock.

Outras músicas com inspiração nos bailes charme já ganharam destaque nacional, revelando esta iminência de popularização do gênero, embora os artistas do gênero pareçam ainda não ter dado a devida importância para essa sonoridade e seu potencial de viralização: o smash hit Bom, de Ludmilla, e Rap du Bom Parte II de Rappin’ Hood, com sample de Odara, de Caetano Veloso, são exemplos de que a grande chance para o R&B se tornar mainstream esteja nos passinhos coordenados do Baile Charme, que o Viaduto de Madureira e o Baile Chic Show ensinam ao mundo desde os anos 70.

Ouça o EP SOUL EU de João Loroza na sua plataforma favorita!

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