O flow dos camelôs nos trens: paralelos com o Funk e o Rap
Por João Victor Pessanha | Ass. Pesquisa.: Richard Elói
O que fazer quando a bateria do celular está prestes a acabar durante uma viagem de trem?
Quando isso aconteceu comigo eu quase entrei em pânico, pois não poderia apreciar minha playlist de viagens e dias frios. Até que a voz de um camelô me lembrou o óbvio: tem música na voz dos ambulantes!
O celular está fazendo a gente perder a capacidade de sentir a cidade, com suas sonoridades, cores, aromas e texturas. Fiquei feliz que esse incidente se tornou o gatilho de uma pesquisa desafiadora. Aproveitei a bateria restante para gravar toda a viagem. Foram 40 minutos da Estação Campo Grande à Estação Maracanã, no ramal Santa Cruz, no Rio. Ouça a gravação enquanto lê o resto do texto:
O que fazer quando a bateria do celular está prestes a acabar na viagem de trem?
Quase entrei em pânico quando aconteceu, pois não poderia mais viajar escutando a minha playlist de viagens e dias frios. Porém, a voz de um camelô vindo na minha direção me lembrou o óbvio: tem música nos anúncios dos vendedores de trem! E precisamos entender o valor disso.
Mesmo não sendo autorizados legalmente a trabalhar nos trens, desde 2021, os ambulantes detém o título de Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. A lei de autoria do deputado estadual André Ceciliano (PT) tem pouco efeito prático, pois nenhuma política pública de proteção ao trabalho dos ambulantes ferroviários foi proposta desde então.
Se nos atentarmos bem, o celular está atrofiando nossa sensibilidade. Estamos cada vez menos capazes de sentir a cidade: com todos os seus aromas, sonoridades, cores e texturas. Além de trazer produtos a baixo-custo, os ambulantes são fonte constante de criatividade, humor, entretenimento e troca social. Através deles conhecemos bordões, gírias, ritmos e estéticas, numa perspectiva maior.
Com a bateria que me restou, gravei toda a viagem, entre as estações Campo Grande e Maracanã, do ramal Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Enquanto termina a leitura, ouça abaixo a gravação na íntegra:
A gravação nos revela muitas coisas: os anúncios – ou pregões – são, quase sempre, cantados. Alguns deles lembram muito o flow dos rappers e dos funkeiros, outros têm uma cadência parecida com a do samba. A musicalização dos anúncios auxilia na memorização, na diferenciação dos produtos, no processo exaustivo de repetição e na chamada de atenção do público que frequenta os trens urbanos.
Além dos músicos que resistem nos vagões, o modo cantado – e, às vezes, rimado – dos ambulantes nos traz outras sonoridades e nos faz cair num paradoxo ao estilo de “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”. Será que o flow dos rappers e dos funkeiros foi inspirado pelos camelôs ou foi o contrário? Existem registros que provam que os vendedores das ruas cantam seus anúncios desde o século XIX, seja nas calçadas, nas feiras livres ou mesmo nos trens (desde os anos 1930).
Ainda nos dias de hoje, é comum que pregões populares se tornem música, sobretudo nos gêneros funk e rap, que são feitos nas ruas e a partir delas. O exemplo de sucesso mais recente é o Funk do Açaí, de Vanessa Esplendorosa, que ganhou fama com seu anúncio divertido nas praias da zona sul carioca.
O influencer Negão da BL também viralizou com seu pregão/música Água, Coca e Latão. Outra cria dos trens é o rapper Xamã, que, apesar de não ser camelô, ganhou fama como artista de vagão, tendo os ambulantes como colegas de trabalho nos trens no Rio.
No contexto onde estamos imersos no celular, a criatividade e ousadia dos anúncios se torna ainda mais importante para manter alguma ponte de comunicação entre as pessoas que estão naquele ambiente: os camelôs, além de democratizar o acesso ao consumo com preços abaixo do mercado, se apresentam como uma resistência de prática comunicacional dos trens e das ruas.
Apresentamos uma reflexão sobre as contribuições dos cantos dos ambulantes dos trens no Intercom Nacional 2025. Confira abaixo o ensaio:
https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/nacional/23/062220251931596858845fe595a.pdf: O flow dos camelôs nos trens: paralelos com o Funk e o RapComenta abaixo o que você acha disso tudo e qual pregão dos vendedores nunca saiu da sua cabeça.
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