O Poesia 17 pode ressuscitar o Rap Acústico?
Por João Victor Pessanha

Reunindo MC Cabelinho, Duquesa, TZ da Coronel, Sant, Luccas Carlos, Alee e Lukinhas, o Poesia Acústica 17 retorna com ares nostálgicos, recriando o icônico cenário do Poesia #3, num aceno à era de ouro do Rap Acústico, que motivou o início do projeto em 2017. Em menos de 5 dias de lançamento, o videoclipe já passou dos 2 milhões de visualizações.

Uma parcela expressiva dos comentaristas do clipe parece estar feliz com retorno do projeto às origens sonoras. O Rap Acústico teve seu auge entre os anos de 2016 e 2020, tendo como marco histórico o estrondoso sucesso de Deixe-me Ir, da gravadora 1Kilo, que soma 740 milhões de visualizações. Apesar de impulsionar nomes como Xamã e Sant, a falta de organização e estrutura da gravadora abriu terreno para a expansão do projeto semelhante da Pinapple Storm, lançado apenas 2 meses depois de Deixe-me Ir.

Entretanto, apesar do nome, muitos consideram o Rap Acústico uma extensão do R&B, que no Brasil costuma ser chamado de Love Song, pelos amantes de Rap e Hip-Hop. Mas é válido lembrar que muitos nomes que atualmente são identificados como cantores de R&B tiveram na prateleira Rap Acústico uma forma de despontar na cena e receber a atenção do público mainstream.

Rap Acústico versus R&B

Lançado em 2017, o documentário Questão de Tempo, produzido pela Blackkstar (gravadora responsável pelo Resenha Da Blakk, projeto de Rap Acústico de grande relevância na época), apresenta uma investigação a respeito da criação de uma emergente e crescente cena musical do R&B no Brasil, onde expoentes atuais como Kiaz, Luccas Carlos, Nith, Pedro Breder e outros — desconhecidos do grande público à época do filme — especulam sobre as dificuldades acerca da consolidação do gênero no mainstream, sendo a desunião dos artistas e a falta de investimento das gravadoras apontados como grandes empecilhos para sua popularização.

No filme, acompanhamos as tentativas de Bricio de ascender ao mercado. Entre idas e vindas ao Rio de Janeiro, o cantor, da cidade mineira de Três Corações, enfrenta dificuldades financeiras e de construção de identidade artística num gênero que ainda não definiu suas características no Brasil. Entretanto, a presença de nomes como Luiz Lins – dono do hit A Música Mais Triste do Ano-, fica nítida a afinidade do Rap Acústico com o que se entendia como R&B na narrativa do documentário, que já foi exibido pela Globonews.

A saturação da estética de TikTok (e do Trapfunk?)

Impulsionados pelas tendências pandêmicas do TikTok, muitos rappers já consagrados se renderam aos beats circulares, faixas de curta-duração, e versos viralizantes com a finalidade de expandir seus públicos e manter sua relevância. Nomes como Felipe Ret, Mc Cabelinho e Mc Poze do Rodo migraram do Rap e do Funk para o Trap e Trapfunk, afetando diretamente as últimas edições do Poesia Acústica, que vinha apostando em nomes com grande apelo entre o público mais jovem.

As edições mais recentes do Poesia, por exemplo, trouxeram nomes como Chefin, Ludmilla, Glória Groove, Tz da Coronel, Luisa Sonza, Oruam, Marina Sena e Ana Castela, flertando com o pop, o funk e o sertanejo. Porém, haviam muitas reclamações dos fãs mais assíduos a respeito da busca pelo hype e da diversificação demasiada de gêneros, com a alegação da perda de identidade do projeto.

Desde que os efeitos da pandemia se dissiparam, um crescente sentimento tem tomado conta do público em geral, sobretudo o mais maduro musicalmente: uma saturação dos conteúdos repetitivos e da comoditização musical (onde sonoridades e letras são altamente replicáveis). Isso tem levado os produtores e músicos a pensar em músicas mais profundas, com maiores complexidades sonora e temática, o que pode favorecer o retorno do protagonismo de músicas mais orgânicas e letras mais poéticas, como na era do Rap Acústico.

O futuro do Poesia Acústica

Equipe da Pinapple Storm na gravação do programa Som Brasil, na TV Globo – Reprodução / Instagram

Nesse sentido, o produtor Malak (@salvemalak), o CEO Paulo Alvarez (@pauloalvarezz), o A&R e diretor geral Uriel Calomeni (@urielcalomeni) e toda a galera da Pinapple Storm mostram que seguem ligados às demandas do seu público e que respeitam e priorizam o gênero que os consagrou. O canal da gravadora no YouTube já ultrapassou os 6 bilhões de views e conta com mais de 11 milhões de inscritos, registrando o sucesso incontestável do formato há quase uma década, ainda que alguns apostem no seu desgaste. O formato ainda rendeu um especial na TV Globo e turnês pelo Brasil.

Mas a dúvida que fica é: ainda podemos chamar de Rap Acústico um gênero que assimila elementos do Trap, do Soul, do Funk e do Samba? Será que isso tudo não se enquadraria no que podemos chamar de R&B brasileiro?

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